Relato enviado pelos voluntários Paloma e
Rodrigo (Palhaços Lorena e Mixirico)
O dom do palhaço em transformar o ambiente é algo que nos surpreende sempre!
Na quimioteca havia um garoto bem debilitado e que não falava com ninguém. Mas, como para o palhaço só existe um tipo de criança, a própria criança, fomos falar com ele.
Tentamos um tipo de contato com ele, mas ele não falava nada, não se manifestava e mal olhava pra gente.
Íamos desistir? Respeitar a vontade dele? E palhaço desiste? Palhaço perde sim, mas perde com honra... Mas acabamos respeitando a vontade dele, vontade esta que estava nítida em seus olhos e nos dizia: Fiquem comigo!
Mixirico, observando que o menino tinha um chinelo do Ben 10, comentou sobre o chinelo e o Estafúrcio disse que não o conhecia. Lorena, profunda conhecedora do Ben 10, contou que ele tinha um relógio com poderes especiais de transformação. Mixirico viu que o garoto tinha uma pulseira e surpreso disse ao Estafúrcio que ele era o próprio Ben 10!!
Estafúrcio disse que não, porque se o garoto fosse o Ben 10 ele usaria o relógio para transformar o Mixirico em algo...
Num gesto tímido e sutil o menino apertou a sua pulseira-relógio e Mixirico virou um gorila!
Foi mágico porque o menino realmente não olhava para nós, mas esse pequeno gesto foi o SIM para a nossa presença, que nos deu a sensação de “Que bom! Ele não desistiu de nós!”.
Estafúrcio e Lorena ficaram admirados por estarem tão perto do Ben 10 e começaram a sacanear o Mixirico, pedindo para que o garoto o transformasse em um automóvel e em um pernilongo. Nessa altura, o Ben 10 já estava todo confiante e sorridente, até ajeitou sua postura na cama, como dizendo: Eu sou o Ben 10!!!
Ben 10 apertava sua pulseira com gosto, só pra ver o Mixirico se lascar!
Estafúrcio resolveu fazer o último pedido ao Ben 10: “Transforme o Mixirico em tudo junto, gorila, automóvel e pernilongo, porque eu quero que ele vá embora assim!”.
Ben 10, olhando em nossos olhos, apertou sua pulseira com tanta vontade e disposição, que fez Mixirico se contorcer para tentar achar uma posição tripla!!!
O Ben 10 começou a rir da transformação de Mixirico, que foi embora todo contorcido.
Nós palhaços ficamos extremamente felizes quando ganhamos um sorriso! Nesse dia ganhamos um olhar... E que olhar!!!
Relato enviado pelo voluntário Cristiano (Palhaço Lourival)
O
mundo anda mesmo muito globalizado, sem fronteiras, sem língua oficial, sem
moeda nacional... pelo menos é o que deveria ser, tudo uma coisa só, um só
sorriso.
No
Hospital Municipal Menino Jesus, Lourival e Dona Saradona nem iriam entrar
naquele quarto do sétimo andar; da porta, sob um sinal de joia (que Lourival
fez só para estabelecer um primeiro contato) a mãe aparecia ao lado de uma cama
fazendo o sinal de “negativo” com o dedo, a seu lado, na cama, seu filho de uns
dez anos.
Pela
porta mesma mandamos um abraço, um beijo, para que ela se sentisse mais
acolhida e ela acabou nos chamando para entrar, brincamos, sorrimos e tiramos
um sorriso de seu filho, que nada dizia.
A seu
lado, uma oriental deitada com seu pequenino filhinho de onze dias!!!
Pequeno
mesmo, e a mãe nada falava. O pouco que perguntávamos, ela se comunicava com a
outra mãe com sinais, que por sua vez nos dizia: ela é chinesa, não sabe falar
quase nada!!!
Outro
dia aprendi com um lindo palhaço, o Ascarez, que a palavra “NI HAO” em chinês,
era “oi, tudo bem?!” e mandei um NI HAO para a mamãe chinesa!
Pronto,
era o que ela precisava, ela e o resto do quarto todo! A chinesa sorria e
respondia, NI HAO, a mãe do outro lado do quarto e seu filho se divertiam com a
nossa comunicação! Falamos umas duas ou oito vezes NI HAO, para deleite de
todos! Foi NI HAO como pergunta e resposta, sem parar... uma metralhadora de NI
HAO!
Saímos
do quarto e uma enfermeira, sem entender nossas risadas, fez cara de curiosa e
sugerimos a ela para entrar no quarto e falar: “NI HAO”!!
E não é que ela deu um pulo pra dentro
do quarto e, abrindo os braços em direção à mamãe chinesa falou bem alto: NI
HAO!!!Depois saiu do quarto feliz,
sorrindo e agradecendo.
Lá dentro, a mamãe chinesa sorria
aquele sorriso de quem é acolhido... NI HAO pra vocês também, era o que seu
olhar dizia.
Relato enviado pelo voluntário Tomás (Palhaço Estafúrcio)
Um dia desses atrás na recepção do GRAACC havia um homem sozinho
que estava quase nos chamando pela sua fisionomia. Ricota e eu nos aproximamos
pouco a pouco e acabamos jogando uma partida de damas com ele.
No mais profundo silêncio, arrastei uma mesa que tem um tabuleiro
até ele, sentei frente a frente com ele e usei papel amaçado como peças.
Ele dizia não saber jogar aquele jogo e, mesmo sem usar uma
palavra, conseguimos explicar e o jogo aconteceu. Ele ganhou e foi
divertidíssimo! O Ricota o ajudou a ganhar dando uns palpites, quase como um
consultor de damas!
Decidimos jogar mais uma partida, mas, desta vez, o tabuleiro
seria formado pelos quadrados do chão. Os jogadores desta vez seriam Ricota e eu.
Posicionamos tudo e, enquanto ele aguardava que eu iniciasse o jogo, eu chutei
uma das bolas de papel e gritei: GOOOOOOOOOOLLLLLL!!
E assim terminou a cena! Com a cara de UÉ do Ricota e o som do
riso ao fundo do homem solitário!
Relato enviado pela voluntária Kenia (Palhaça
Zélia)
Algumas pessoas acham que a gente vai ao hospital
só pra ver crianças! Mas isso não é verdade! Também vemos os acompanhantes e os
funcionários... ah os funcionários!!
Estamos em meses de quermesses!! E, para aquele que
se lembram, em quermesse temos Correio Elegante!! Ainda existe? Sim, claro que
existe!
Neste espírito quermessístico Charles e eu
entregamos um correio elegante para o D. com a assinatura da C.! Ele estava
trabalhando no escritório da radiologia enquanto ela estava na própria
radiologia!
Ela comentou que aquela manhã estava muito
tranquila, porque não havia pacientes para fazer exames. As meninas da recepção
confirmaram o marasmo da manhã... Opa!! Então nada melhor para darmos uma
esquentada no ambiente!!
Foi aí que decidimos entregar o correio elegante,
com a seguinte mensagem:
D.,
Estou te esperando para fazer uma
ressonância no seu coração.
Assinado: C.
(Um beijinho vermelho no cartãozinho para esquentar aquela manhã!)
D. estava ao telefone quando o Charles entregou o cartãozinho com
aquele beijo vermelho. Ele olhou surpreso, sorriu e fez um sinal com a cabeça
do tipo “quem é???”.
Saímos correndo!!
Quem sabe a semente plantada não dá alguns frutos???
Relato enviado pelo voluntário Alan (Palhaço Jamal)
Que
manhã divertida no Hospital Menino Jesus!!
O
encontro de um grande trio: Ascarez, Lourival e Jamal!!
Os três
muito amigos, muito juntos, muito cumplices e muito quietos! Muito quietos??
Sim!!
Ascarez é
um palhaço que trabalha mais o silêncio, não conversa muito com as pessoas e
isso é interessantíssimo. Interessante ver como as pessoas reagem a isso e como
provocam o silêncio do palhaço.
Em um dos
jogos, onde tinha bastante gente, Ascarez comandou o “Xiiiiiuuuuu”. Se alguém falasse
alguma coisa, ele simplesmente colocava o dedo na boca e fazia Xxxxxiiiiiiiuuuuuu!!!
Pedindo silêncio de todos.
Lourival e
Jamal sacaram isso e entraram no ritmo. Qualquer barulhinho, por mais baixo que
fosse, lá estavam em três fazendo Xxxxiiiiiiiuuuuuuu!!!
Foi aí que
alguém comentou do cabelo do Lourival (pobre Lourival!!), que deste momento em
diante viu o Ascarez e o Jamal bagunçarem ainda mais seu cabelo. Jamal, além de
bagunçar o cabelo, fingia que estava lambendo as mãos e passava na cabeça do
Lourival.
Mas fingir
não é fazer, correto? E então Ascarez, com toda sua destreza, lambeu as mãos
todinhas e passava no cabelo do Lourival com gosto!! O público foi ao delírio.
Uns faziam Arrrggghhhh!!! Outros riam, outros olhavam com espanto, com
alegria... E tudo isso sem falar absolutamente nada!
Pra que
falar alguma coisa?? O importante é fazer!! E fazer juntos, com bons
parceiros!!
Relato enviado pelo voluntário Rodrigo (Palhaço Mixirico)
Dizem que um homem não é ninguém sem o seu chapéu! Eu concordo
plenamente com isso!! Tanto que tenho um lindo chapéu branco, uma espécie de
boina, que ostento com muito orgulho por onde ando!
Meu chapéu é tão lindo que eu sempre achei que meus companheiros
tinham um pouco de inveja dele! Num certo sábado no GRAACC eu pude perceber que
eu sempre tive razão! Lorena, Estafúrcio e eu estávamos trocando uma ideia com
o R. na Quimioteca, quando disfarçadamente Estafúrcio roubou o meu chapéu! Eu
levei um tempo pra notar, estava até batendo um papo com o B. e a E. quando
percebi que meu chapéu não estava mais na minha cabeça! Fiquei apavorado!!
Na tentativa de me ajudar, a Lorena pegou o gorrinho da E.
emprestado e colocou na minha cabeça. Eu não fiquei satisfeito, afinal aquele
não era o meu chapéu!! Sem contar que, pra completar, todos começaram a caçoar
de mim dizendo que eu era uma menininha porque o gorrinho era rosa!! Fiquei tão
abalado que até saí um pouco dali para me recompor!
Enquanto isso Estafúrcio e Lorena tentavam esconder o chapéu num
dos bonecos que ficam pendurados no teto da Quimioteca. Eu percebi que o
Estafúrcio estava tentando pegar o boneco, mas não entendi o porquê, então
voltei para ajudar o meu amigo. Levantei o Estafúrcio enquanto ele fazia o que
queria, mas antes que eu pudesse perguntar o que ele tinha feito nas alturas,
já começaram a rir de mim com o meu gorrinho rosa novamente! Saí mais uma vez
enfezado!
Mas aquilo não era justo!! Logo voltei querendo o meu chapéu de
volta!! Afinal meu chapéu é meu, poxa!! Depois de procurar um pouco e receber
algumas dicas daqui e dali, eu olhei para o alto e vi o meu chapéu!! Lá estava
ele lindo e branco na cabeça do boneco!!
Como estava muito alto, eu não conseguia alcançar! Dei um
pulo sem sucesso! Mais um pulo e nada! Mas, quando dei o terceiro pulo,
consegui tocá-lo e o chapéu caiu, para espanto de todos, encaixado na minha
cabeça!!! Definitivamente o chapéu é do seu dono, como o seu dono é do seu
chapéu!
Eu disse "Tchau" e fui embora sem falar com ninguém, todo orgulhoso do meu feito!! E ao fundo eu escutava gargalhadas deliciosas.
Relato enviado pela voluntária Ana Carolina
(Palhaça Lola)
Foi numa visita à UTI do Hospital Menino Jesus que
conhecemos o J.L., um garotinho lindo, lindo, lindo... todo especial!
Devagar fomos entrando e a enfermeira logo avisou:
“Não cheguem muito perto, pois ele adora palhaços, mas não pode se agitar”!
A avó estava fora do quarto e quando chegou ficou
toda feliz porque estávamos lá! Ela disse: “O J.L. ama palhaços!!!! Vem, vem
cá, vem na frente dele!”
Ficamos muito inseguras, afinal a enfermeira tinha
nos dito para não chegar perto, mas a avó era insistente e sutilmente Ornela se
aproximou da cama, olhou pra Lola e olhou pra enfermeira. A avó estava mega-hiper-super-blaster
empolgada e dizia: “Olha J.L., olha a palhaça, manda beijo pra ela.”
Nessa hora a Lola muito devagar também se aproximou
e viu o momento em que ele, com os olhinhos semiabertos e muito esforço (pois
estava cheio de aparelhos), foi lentamente fazendo um biquinho e jogou um
beijo!!!!
Foi um momento mágico para Lola e Ornela!!!
A avó não se aguentava de felicidade e só
agradecia!
Olhamos o monitor que ficava em cima da cama do
pequenino e os batimentos estavam 96, 97, 98... A enfermeira, que acompanhava
tudo com atenção, disse que estávamos fazendo bem a ele.
Já tínhamos feito a nossa parte! Na verdade não
tínhamos feito nada!! Apenas estivemos lá! Quem fez algo lindo foi o J.L.
Enquanto saíamos de lá a enfermeira falou: “Guardem
isso no coração de vocês!” Não precisava de aviso... Ele já estava no nosso coração!! E aquele pequeno biquinho estará na nossa memória pra sempre!!
Relato enviado pelo voluntário Cristiano (Palhaço
Lourival)
Amanheceu chovendo muito nessa
terra. Dilúvio. Mas com asas, barbas e narizes molhados, lá fomos nós para o
GRAACC.
E quem diria que essa maratona molhada não nos reservava um grande desafio?? Sim! Participamos de um sinistro campeonato de pega-dedão!
Lourival, grande campeão do jogo de pegar dedão, foi mostrar para
sua companheira Dona Borboleta como era o jogo para, mais uma vez, sagrar-se
campeão e óbvio, ganhou e comemorou desfilando no meio da galera que aguardava
atendimento.
Com a sua dança da vitória, Lourival fazia sucesso e se sentia o
maioral! Até que, num instante, um dos espectadores, com seus 7 ou 8 anos,
desafiou o grande campeão! Desafio prontamente aceito e, não é que o moleque
sacou de um truque usando regras ignoradas pelo campeão e, usando do golpe do
chicote, ganhou de Lourival!!!
Inconformado, Lourival desafiou Dona Borboleta que, usando da
mesma técnica, ganhou o jogo!
Relato enviado pela voluntária Paloma (Palhaça Lorena)
Num sábado
desses atrás no GRAACC, fiquei muito feliz ao reencontrar o E., um amiguinho
meu de muitas visitas anteriores. É sempre uma delícia jogar com ele. Comecei
logo declarando o meu amor a ele. Eu fazia
elogios e E., como todo menino de uns nove anos, ficava todo sem graça.
Mixirico, com ciúmes, perguntava ao E. como ele conseguia aqueles elogios de
mim. Lorena: “E.,
você é lindo!” Mixirico: “E.,
como você consegue ser lindo?” E.: “Não
sei...” Lorena: “E.,
você é gentil!” Mixirico: “E.,
como você consegue ser gentil assim?” E. fazia cara
de dúvida e sorria. Lorena: “E.,
você é elegante!” Mixirico: “E.,
como você faz para ser elegante?” E.: “Nem sei o
que é elegante...”
Relato enviado pelo voluntário Alan (Palhaço Jamal)
Numa manhã de
terça-feira, no GRAACC, na Quimioteca, Lola e Jamal começaram a prestar atenção
numa mãe que conversava com a filha, de que o pai era taxista e que não comeu o
bolo de prestígio que a filha tinha feito, porque o pai deu o bolo pro amigo,
blá blá blá...
Muita
informação! Quando Lola e Jamal quiseram colocar ordem na casa, ou melhor, no
hospital, a mesma mãe diz para o Jamal:
- É você! Você mesmo! Você é aquele palhaço que usa
calça de mulher, não é?!
- Não não. Aquele é o Lourival. Eu sou o Jamal. O
Lourival é mais forte do que eu! – respondi.
- Não é! É você mesmo! Eu me lembro de você!
Naquele dia eu estava muito triste e você só apareceu com aquela calça e eu dei
muita risada! – insistiu a mãe.
Relato enviado pelo voluntário Dantas (Palhaço Quincasss)
Durante um passeio no Darcy Vargas nos deparamos com um quarto onde havia uma criança no berço, enquanto o pai lhe dava papinha e a mãe observava.
Quincasss e Peleca pediram licença e o pai prontamente autorizou a entrada.
Na frente do berço, Peleca fez
alguns movimentos enquanto a criança observava sem reação. Quincasss decidiu
então executar alguns passos de ballet, e a criança começou a realizar passos
com dificuldade 5, amplamente conhecidos no ballet, enquanto estava deitada no
berço.
Percebemos que estávamos
diante de uma bailarina profissional, porque não é qualquer bailarina que
executa esses passos de ballet e ainda deitada!! Era sensacional!!
A cada movimento ela sorria
e gargalhava! O Quincasss continuava a dançar e a criança continuava a realizar
os passos com dificuldade 5 do ballet.
Peleca também dançava enquanto
a criança continuava a dançar freneticamente!
Neste momento o pai já estava
com um sorriso lindo, vendo sua filha gargalhar enquanto dançava
freneticamente, enquanto, do outro lado, a mãe sorria feliz com aquela cena.
Quincasss já estava
esbaforido, pois a energia da bailarina não tinha fim. Ela estava tão radiante
e feliz que poderia dançar todo o tempo.
Ainda dançando Quincasss e
Peleca foram embora enquanto a pequena bailarina sorria e dançava sem parar.
Relato enviado pelo voluntário Mauro (Palhaço Malavazzi)
Bem no meio do feriado, num
sábado frio, fomos dar um rolê no Menino Jesus. No sétimo andar, entramos em um
quarto em que havia uma menininha pequena dormindo, talvez anestesiada, talvez só
dormindo mesmo, mas cheia de fios, tubos e aparelhinhos. Na poltrona, a mãe, com
um livrinho na mão.
- Oi, desculpa a
curiosidade, mas o que você está lendo?
- É um caça-palavras.
- Nossa, a gente adora caça-palavras.
É sobre o quê?
- Música.
- Ah, então deve ter aí...
ópera!
- Não. Tem Chico Buarque.
- Se tem Chico Buarque, tem
Elis Regina.
- Tem.
- Se tem Elis Regina, tem Gilberto
Gil.
- Tem!
- Se tem Gilberto Gil, tem Exaltasamba.
- Não, esse não. Aí é outro nível.
Brincamos com os níveis dos artistas.
Michel Teló e até Mulher Melancia entraram na conversa.
Perguntamos a ela qual era a
música que ela mais gostava, que nós cantaríamos. Ela não soube dizer uma, mas
disse que poderíamos cantar para a filha dela, que estava fazendo aniversário
naquele dia! Um ano.
Opa, então teríamos que
fazer algo bem melhor. Avisamos à mãe que faríamos uma entrada melhor do que
aquela que tínhamos feito. Saímos do quarto e pegamos três máscaras para
usarmos como chapeuzinho de festa de aniversário. Entramos no quarto com um
andar de gala, pedimos permissão para colocar o chapéu-máscara na cabeça da
mãe, ela consentiu e o Ascarez a vestiu. E aí cantamos parabéns a você.
Cantamos sem fazer graça, uma versão mais lenta da música, tentamos cantar o
mais afinado e bonitinho que conseguíamos.
Durante a cantoria, a menina
não se mexia, continuava dormindo, mas a mãe estava muito emocionada. Ela
olhava para a filha, escutava a nossa música e chorava. Chorava tranquila, sem
soluçar, um choro de várias lembranças, pancadas, dificuldades e vitórias que a
menina deve ter passado. Tanta coisa que muita gente de 80 anos não passou, a
menina tinha passado em apenas um. E logo no primeiro!
E assim, no meio da cidade,
no meio do feriado, no meio do frio, tinha um quarto de hospital com dois
palhaços cantando com chapéu-máscaras, uma mãe chorando com chapéu-máscara e
uma menininha dormindo.
Saímos do quarto depois de
ouvir um "obrigada".
Quando passamos pela porta
do mesmo quarto, a mãe nos chamou e tirou uma foto com o celular. "Quando
ela acordar, vou mostrar para ela".
Relato enviado pela voluntária Rubia
(Palhaça Dalila)
Vazio. Era o que
preenchia aquele quarto, no Hospital Emílio Ribas.
Dalila e Durval
bateram na porta e entraram. Nos olhamos e por alguns milésimos de segundos
escutava apenas o meu coração disparar rapidamente sufocada pelo vazio.
Durval,
imediatamente, fala: Aqui é o quarto de Dona F. ?
Dalila,
espantada, responde: Uau, você adivinhou. Pelo visto você adivinha coisas.
Então, eu duvido você adivinhar outra coisa de Dona F.!
Naquele instante,
outra troca de olhar entre Dalila, Durval e Dona F., que segurava um livro de
provérbios.
Dalila ficou com
uma vontade louca de cantar para aquela senhora, deitada e enrolada nas
cobertas com apenas a cabeça de fora, olhar perdido, mas atento a nós.
Incrivelmente
Durval olha atentamente para Dalila e diz: Dona F. quer que a gente cante uma
música para ela!
Uau, até o
momento eu sabia que Durval tinha o dom de adivinhar os nomes lendo as placas,
disfarçadamente, nas camas dos pacientes. Até eu tenho esse dom, mas ler
pensamentos me fez arrepiar.
Iniciamos a
cantoria, preenchendo aquele quarto com todo nosso amor e boa vontade, já que
somos péssimos vocalmente. Dalila e Durval entoaram grandes sucessos do
sertanejo, além de algumas dancinhas, especialmente para o publico mais
especial daquela manhã.
Dona F se
mostrava atenta a nossa apresentação, com olhar precavido e seguindo todos os
nossos passos.
Nosso repertório
musical era composto das melhores canções de Chitãozinho & Xororó, Leandro
e Leonardo e Zezé de Camargo e Luciano.
Mas, o ápice do
show foi quando soltamos “É o amor”. Nesse momento, Dona F. não se aguentou e
cantou, mesmo com uma voz fraca e baixa, com os olhos que falavam muito mais do
que palavras. Enquanto Dona F. cantava com os olhos, a dupla D & D cantava
com o coração.
Amor.
Era o que preenchia aquele quarto quando a dupla Dalila e Durval encerrou o
show sendo aplaudidos pelo sorriso de Dona F.
Relato enviado pelo voluntário Fábio
(Palhaço Bordô)
Logo
que chegamos ao elevador do andar térreo, uma mãe nos anunciou que o quarto 411
tinha um bebê só. Isso mesmo leitor, o bebê estava solitário. Duvidei um pouco,
mas o número 411 não saiu da minha cabeça. Depois de atuar no quinto andar,
descemos para fazer o quarto andar e nos deparamos com o bebê no quarto 411.
Era real, o nenê estava sozinho. Foi o momento mais incrível do dia e talvez
deste ano. Me explico: O bebê interagia conosco de uma maneira linda. A cada
investida nossa, um belo sorriso do nenê. Ele nos entendia, algo que não é
comum nas nossas visitas aos bebês. O olhar da criança era tão claro, tão
verdadeiro, tão único e a reação do singelo rosto era tão mágica que aprendi
algo naquele momento. Me veio a mente que ele simplesmente estava ali por
inteiro, completo. O nenê era um ser na sua plenitude, pois tinha uma luz no
olhar que nos encantava. Os papéis foram invertidos, o palhaço era ele e nós
viramos criança.
Será
que precisamos simplesmente ser para encantar o outro? Isso implicaria num
estar por completo para sermos o que somos.
Será
que precisamos de truques? Precisamos de disfarces?De máscaras?
Paro
e penso...
Acho
que para resgatar esse ser, precisamos nos desintoxicar de tudo que nos impedia
de sê-lo.
Sugiro
uma receita para um bom começo: vestimos a nossa melhor roupa que sempre
sonhamos para nós, mas não queríamos mostrar para ninguém, uma pintura leve no
rosto para que os outros vejam o que mais valorizamos na expressão da nossa
criatura e uma mancha vermelha no nariz que nos dará permissão para entrar numa
infinita diversidade de universos variados.