Relato enviado pela voluntária Daniela (Palhaça Janja)
Encontramos no 4º andar a Dona A. do carrinho de comida e ficamos ouvindo ela contar a história do Sururu láaaaaaaaa de Alagoas. Oh mulher boa pra contar história. Ela é do tipo mãezona, acolhedora, com um sorriso largo no rosto, dentes brancos e perfeitos e que te faz sentir bem logo de cara.
Ricota e eu ficamos nos deliciando ouvindo ela contar a história. Fomos embora daquele andar, mas encontramos Dona A. novamente no 6º andar, quando já estávamos de saída.
Eu disse pra ela: Dona A. amei a senhora e o tal do sururu, posso te dar um abraço?
Ela: Oxi, mas é claro que sim.
E nos abraçamos sem pressa de largar. Sabe aquele abraço longo e acolhedor?! Pois é, eu acho que eu estava precisando de um desses e não queria mais soltar.
Quando eu finalmente larguei Dona A., ela estava com os olhos cheios d´água e disse: Olhe, eu estava tão desanimada e triste. Hoje cedo me ligaram lá de Alagoas pra falar que minha mãe sofreu um derrame. Eu tava aqui com meu coração apertadinho e só pensando em “mainha”. Esse abraço foi a melhor coisa que podia ter me acontecido.
(Acho que nós precisávamos uma da outra).
Falei pra ela: Não seja por isso...
Abri os braços, bem grandão, como se fosse o Cristo Redentor e disse: Me abrace mais!!!!
Nos abraçamos mais e fui embora dali refletindo sobre aquele momento.
Várias coisas fervilhavam na minha cabeça, quando Ricota disse: Janja, acabou nossa visita. Vamos nos trocar?
Eu disse: Não. Vamos embora assim. Quero ir pra casa assim... Janja.
(Uma das coisas que passavam pela minha cabeça quando Dona A. falou de sua mainha foi que faz 10 anos que meu pai teve um derrame e encontra-se numa cama totalmente dependente de seus familiares e ele nunca conheceu a Janja. Me senti em dívida com ele.).
Ricota entendeu, entrou no clima e disse: Vambora então !!!!
Fomos.
Cheguei em casa e fui direto para o quarto do Seu Ricardo.
Eu estava tão eufórica que nem tive tempo de entender o ambiente, bater na porta e perguntar se eu podia entrar... nada... já cheguei chegando.
Ele tomou um susto porque estava um pouco sonolento.
Eu disse: Vamos abrir essa janela e deixar o sol entrar?
Ele já meio rindo disse: Pra quê? Eu não posso ir lá fora!
Eu retruquei: Então deixa o lá fora entrar aqui dentro.
Ele me respondeu com um gesto que só quem o conhece sabe o que estou dizendo. Subiu o ombro, levantou a sobrancelha e balançou de lado a cabeça.
Perguntei: Qual é o seu nome mesmo?
Ele: RI ....... RI .... RI .... CARDO. E o seu?
Respondi: O meu é Janja! Muito prazer!
Ele: Janta?
Eu: Não. Janja.
Ele: Almoço?
Eu: Ah vai te catar! Tá achando que eu sou palhaça? Tchau, foi um prazer e eu vou embora.
Ele segurou minha mão muito forte e disse: Como vai, como vai, como vai...
E eu: Muito bem muito bem bem bem!
Eu mesma já não sabia mais quem era o palhaço da história. Nos divertimos muito. Ele se deliciou com a visita e eu mais ainda. Foi incrível e talvez um dos momentos mais emocionantes que eu vivi enquanto Janja.
Sabe aquele momento que marca pra sempre e você já sabe que vai contar para os netos? Então, esse é um desses momentos. Me despedi dele e fui embora com uma sensação maravilhosa que jamais conseguirei descrever e com perguntas que não sei se um dia saberei responder.
Quem precisa mais de um abraço? Eu ou outro?
Quem tem mais espaço, a criança ou o adulto que moram em mim?
Como anda o palhaço que habita em mim?
As nuvens são de algodão?
Como essa flor nasceu de dentro do concreto?
Por que motoboy buzina tanto?
Não precisa responder...
Eu não quero entender...
Acho que a palavra é SENTIR.
E o resto?
O resto que se exploda!!!















