
Dia 27/3 – Dia do Circo, comecei o dia lendo sobre o dia do circo em minha biblioteca matinal onde faço uma série de eventos que me deixam apto a sair de casa! Enfim, a matéria dizia da importância da data e das festividades do dia, o almoço no MASP com palhaços convidados em homenagem a Piolim, por tudo que representou, como se o palhaço fosse, por si próprio, a maior expressão circense.
Se é ou não é, eu não sei, mas que meu presente estava reservado eu não tinha a menor ideia.
GRAACC, 9h00 e cadê meu parceiro? Nunca vi e mal lembro seu nome, chegou pontual e eu, sempre acompanhado de minha ansiedade, cheguei um pouquinho antes... sentir o clima, tomar uma água e ver o hospital, sua recepção, seus pacientes, médicos e funcionários de uma forma diferente... e tudo muda quando o Lourival pede passagem.
Geleka foi meu parceiro, um menino gentil, educado, voluntário e claro, advogado, qualificação que resume todas as qualidades anteriores, de forma que me senti muito bem recebido desde o início! Chaves aqui, armário ali e um grande vestiário, amplo espelho, pias, ah, que beleza, o camarim do Lourival esta na minha frente, mãos à obra!
Nomes, andares, números e outros detalhes são num primeiro momento, difíceis de serem lembrados, esqueço com a facilidade germânica do Alzheimer e, num segundo momento, tornam-se detalhes tão pequenos no universo do Lourival que acabo não desprezando, mas deixando tais detalhes de lado.
Lourival e Geleka subiram, talvez, para o oitavo andar, onde metade dos quartos não tinha entrada permitida, uma boa parte tinha crianças dormindo e as que podiam receber nossa visita nos viam muito limitados, máscara e avental limitando nossos movimentos e caretas e ainda assim a T. insistia em sair de sua soneca para ver nosso desfile, passarela que também foi usada por sua mãe.
Quartos e andares diferentes e decidimos ir à brinquedoteca ou quimioteca, Geleka com certeza irá se lembrar, pois embora tenha escrito o nome errado, segundo ele, no relatório do hospital, sinceramente agora eu não lembro o nome certo, mas se pudesse novamente batizar aquele lugar seria risadoteca, me parece muito mais honesto e condizente com o ambiente.
Saindo do elevador já conhecemos um menino que de sua cadeira de roda estendeu a mão – tudo bem, lavem as mãos, álcool, mascara, avental, etc - tudo foi por água abaixo pois não resistimos em devolver a gentileza e cumprimentar o que eu chamaria de capitão super alto astral!!! E vejam o porque:
- Tudo bem? Como vai, como vai, como vai? Ele não solta a nossa mão, como todos estamos acostumados a fazer, num gesto formal, frio, automático e praticamente sem calor ou vontade de apertar a mão de alguém mesmo, enfim, mão presa à dele e, alguns segundos depois recebemos um “tudo bem não”... hum... olho para o Geleka que, num passe de mágica e misto de rebolados faz um “mais ou menos?” e o capitão super alto astral diz, em fonte 22, arial, negrito e sublinhado ativados: “esta tudo ÓTIMO, porque eu acordo sempre de bom humor!!!”
Achei que seria suficiente receber tamanha carga positiva, sentimento bom, ou seja lá o nome ou rotulo que qualquer um queira dar para isso, mas não, hoje é dia do circo e meus presentes não tinham acabado.
Muitas baias e corredores, ainda no mesmo andar, num deles um menino, preso em seu DS ou Playstation ou qualquer destes jogos portáteis que substituem facilmente nossa intervenção acabou entrando no jogo do Geleka e utilizou o aparelho que nos impunha e dominava nossos movimentos, hora dava choques, hora nos fazia dançar, hora nos zigue-zagueava e, no mais, não nos deixava sair da baia, sempre utilizando o aparelho com seus raios invisíveis que nos comandava, nos salvamos graças à astúcia do Geleka, que aproveitou um momento de distração do dono do controle de palhaços e jogou uma corda para me resgatar.
Enquanto isso, uma menina de braços enfaixados, de seus oito anos, no colo da mãe, chorava e soluçava, de tanto rir, e não estávamos brincando com ela! Ria de forma contagiante, ria de verdade... ria como se a risada fosse tudo, ria tanto, mas tanto que resolvemos nem brincar com ela... que fique rindo, e pronto! E ria...
Já quase indo embora, uma enfermeira nos abordou dizendo que a T., outra T., nos chamava, do outro lado do andar e fomos, porque Geleka não deixava de lado desafio algum e a T. lá, querendo rir mais, porque já estava rindo; à sua frente duas mães falando baixinho e do lado de T., mãe e filha estavam sentadas, a filha não era criança, devia ter um pouco mais de vinte anos, não ria, não olhava e ao que parecia, não queria brincar – respeitamos - mas as mulheres em sua frente não paravam de cochichar e fomos lá, dar sequência à fofoca, tricotando coisa de novela, a velha ou a nova e o Geleka, querendo me ensinar como fazer o olhar 43 para a T. Ele piscava olhos, fazia careta e mexia a boca, quando de repente, sem mais nem menos, mãe e filha, antes quietas, que a esta altura estavam atrás de mim, começaram a rir e apontar pra mim... mas riam muito!
Muito bem, eu disse, olhando para elas sem entender nada... estão rindo de mim? Perguntei. Alguns segundos, talvez um minuto depois, a mãe, recuperando o fôlego, a filha ainda não, conseguiu balbuciar algo como: “obrigada! Eu precisava muito rir hoje, obrigada.” E, depois de rir um pouco mais me explicou: - sua calça é de mulher! – e ria mais (e é mesmo de mulher).
E por mais que eu explicasse que o M da etiqueta era de “tamanho médio” e não de “mulher” elas riam... momento bom, saída pela direita com elas ainda rindo, eu olhava de vez em quando para trás, com olhar de quem comprou a calça errada e, enquanto esperávamos o elevador para ir embora, a mãe levantou e veio falar com a gente dizendo: - a doença dela voltou e hoje foi o primeiro dia, já começaram pela quimio e estava muito difícil e triste pra gente, viemos só para consulta, obrigado de novo...”
Bom, o termo “obrigado” com toda certeza teve muito menos importância que a risada que não só brotou do nada, Lourival não fez nada, Geleka não fez nada, só estávamos lá, eu de costas... e o detalhe da cintura da calça, de mulher, fez a coisa acontecer.
Tenho certeza que muitos já ganharam presentes dos mais variados possíveis, mas cair no colo um presentão deste, no dia do circo, em agradável companhia, é coisa que merece ser, no mínimo, registrada! Parabéns a todos que, de uma forma ou de outra, estão presentes nesse circo todo e, estar presente, por si só, já faz sem querer fazer, muito bem.

Turma do cara-crachá! E a calça de mulher do LOUriVAL.
LOUriVAL
























