Palhaço também conta histórias!
Neste blog você pode saber um pouco mais das nossas histórias vividas nos hospitais.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Encontros e Despedidas


Relato enviado pelo voluntário Fabio Lins (Palhaço Tunico)


Todos os palhaços voluntários que visitam o hospital Darcy Vargas conhece o garoto S***.  Ele está há muito tempo na UTI.

Durante esses dois anos de voluntariado na Operação Arco-Íris, eu pude, quase que mensalmente, conviver com esse garoto tetraplégico e seus pais.


Por todo esse tempo eu sempre levei a minha flauta para "tocar uma canção para o S***" e me divertia junto com as enfermeiras, pais e acompanhantes presentes na UTI.

Bom, um dia eu deduzi que ele não gostava das minhas músicas e por várias visitas a brincadeira se resumia a todos tirando sarro de mim. 

Ouvia "pobre Tunico". E eu achava que estava abafando, mas aquele garoto não esboçava nenhuma reação, nem sorria, nem chorava, apenas olhava cada "apresentação" ali em silêncio.

Sendo assim, passei os últimos dias na equipe do Darcy Vargas com esse sentimento.

Só que mais uma vez estava enganado. Na minha última visita ao hospital (trocamos de hospital todos os anos), o pai de S***, sabendo que eu mudaria de equipe, solta: "Sabe Tunico, o meu coração nunca se engana com o olhar do meu filho e tenho certeza que ele sentirá muita saudade de você".

Nessa hora minha voz embargou, meus olhos marejaram e a única reação foi um sorriso tímido, sim tímido para um Tunico que tentava prender o choro, afinal, Palhaço não chora! Não?


quarta-feira, 8 de abril de 2015

Riso Frouxo


Relato enviado pela voluntária Daniele (Palhaça Clô)




Clô e Coriza apareceram na porta.
A mãe da menina B., 8 anos, olhou e já começou a rir.
B. não aguentou e riu também.

Elas se entreolharam e perguntaram:
- O que aconteceu? Porque vocês estão rindo?
- Porque vocês são palhaças! – disse B.

A mãe gargalhava.
E nós, sérias.

Clô se adiantou:
- Ok, minha senhora. Conheço uma técnica que isso pára instantaneamente.
- Qual? – perguntou a mãe.

Nisso, J., 12 anos do outro leito já olhou e começou a rir.
A mãe de J. tentou avisar:
- Como que palhaço não vai fazer rir?!

As palhaças se adiantaram um pouco adentrando do quarto.

Clô começa:
- Meninas, todas. Levantem a mão direita.
Levantaram.
- Agora façam como se fosse uma pinça com os dedos, desse jeito. – demonstrou.
E fizeram.
- Agora acompanhem o movimento. (...) Isso se chama Zíper de Boca.

A mãe de B. e a própria B. caíram na gargalhada.

Coriza alertou a Clô:
- Clô! Esse movimento foi pra abrir!!
- Ai caraca! É mesmo... – conluiu Clô.
Ela respirou fundo e recomeçou:
- Muito bem, meninas. Levantem a mão esquerda.
Levantaram... com sorrisinhos.
- Façam a pinça com os dedos e... (...) Fecha a boca!

Parece que não adiantou nada. Todas continuaram a rir mais ainda.

Coriza, com muito da esperteza no pâncreas disse:
- Clô! Tem que puxar dos dois lados!!
- Nossa! Boa! – se animou Clô.
Nova respiração concentrativa e:
- Meninas! Levantem as duas mãos.
Levantaram.
- Façam a pinça com os dois dedos e ... (...) Puxem!

Aí, TODAS do quarto gargalhavam de chorar... E as duas sem entender nada!!

- O que aconteceu? – perguntou Clô.
- Você está parecendo um sapo! Disse J.

E continuaram a gargalhar.

- Coriza!
- Oi Clô!
- Já se temos um diagnóstico pra esse quarto!
- Qual?
- Quarto do Riso Frouxo!

Em meio aos risos, as duas palhaças saíram inconformadas sem saber o motivo.

  

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O Pezinho


Relato enviado pela voluntária Adriana (Palhaça Múrcia)




Sábado de carnaval, verão, sol a pino e um calor escaldante!!
Passávamos pelo corredor da UTI quando ouvimos uma vozinha que só resmungava, como se dissesse “éeeeee...”.

Somos palhaças muito curiosas e logos quisemos saber o que “era” afinal.
Entrando no quarto vimos uma mãe com avental e luvas que fazia cafuné num pequenino de poucos meses de vida...
Quem resmungava era o pequenino... “éeeeee...”

Dália e eu somos muito boas em resolver problemas alheios! E ali não seria diferente! Logo começamos a questionar a pequena criatura sobre o que incomodava...

Múrcia: “Sua mãe fez alguma coisa pra você?”
Bebê: “éeeeee...”
Dália: “Ai que chato, mãe!”
Mãe: “Mas eu não estou fazendo nada de errado!”
Dália: “O que ela fez está te incomodando?”
Bebê: “éeeeee...”
Múrcia: “É... foi a senhora mesmo! Ele não mentiria pra gente...”
Bebê: “éeeeee...”

O bebê estava incomodado, a culpa era da mãe e precisávamos resolver isso!
Olhando bem para o bebê, percebemos que ele estava usando fralda e meias...
Como assim, meias??? Estava um calor do cão!! Eu mesma estava quase gritando de raiva da minha meia calça que grudava nas minhas pernas!! Quando vi aqueles pés pequeninos, que certamente estavam acalorados, logo matei a charada!!!

Múrcia: “Só podem ser as meias!”
Dália: “Mas é claro!!! Com esse calor todo!!! Estou aqui derretendo!!”
Múrcia: “E a senhora ainda coloca meias no pobre coitado???”

A mãe sorriu e começou a tirar as meias do pequenino!
O semblante do bebê mudou... ele começou a movimentar os pezinhos e até os dedinhos, como se sentisse o toque do vento que o refrescava...

Aquela cena foi tão linda que Dália e eu fizemos uma composição musical em homenagem aquele momento!!

“♪ Meu pezinho, meu pezinho
Vou despir, vou despir
Pra ficar soltinho, pra ficar soltinho
E o vento sentir, e o vento sentir... ♪”

Foi lindo!!
Uma médica entrou no quarto neste momento sem entender nada e falamos pra ela que se ela tivesse qualquer tipo de problema era só chamar a gente, afinal acabávamos ali de resolver mais um!

E não parou por aí... porque como a mãe estava usando luvas para tocar o bebê, falamos pra ela que assim que ele dormisse, ela poderia tirar as luvas para também sentir o toque do vento!!
Alguns minutos depois encontramos a mãe no hall do 7º andar falando no celular... Ela estava sem as luvas e quando nos viu balançou as mãos, bem feliz, enquanto sentia uma grande sensação de frescor!!

E você? Precisa de alguma ajuda? Somos muito boas nisso!!!