Palhaço também conta histórias!
Neste blog você pode saber um pouco mais das nossas histórias vividas nos hospitais.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Vamos Cantar Aquela Lá!


Relato enviado pela voluntária Daniela (Palhaça Janja)




Estávamos na UTI perambulando de quarto em quarto, quando entramos o do bebê C.
Ele era tão pequenininho que quase cabia na palma da minha mão!! Ok ok, pode ser que eu esteja exagerando, mas vale lembrar que minha mão é bem grande!
O C. chorava muito, muito, muito!!

Olhei pra Múrcia e pra Coriza e rapidamente e Múrcia propôs que cantássemos uma música. Múrcia falou: - Janja, vamos cantar aquela lá!!
Eu fiz cara que sabia do que ela estava falando e começamos a cantar:

"Como pode um peixe vivo viver fora da água fria
 Como pode um peixe vivo viver fora da água fria
Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a sua
Sem a sua
Sem a sua companhia..."

Aos poucos ele foi se acalmando no meio da canção e quando terminamos estava um completo silêncio.

Nos olhamos orgulhosas com aquele gostinho de vitória e... ele começou a esboçar um novo chorinho...
Mais do que depressa começamos a cantar novamente:

"Como pode um peixe vivo viver fora da água fria..."

Ao final da música aquela calmaria de dar gosto. O bebê calminho respirava tranquilo, quase fechando os olhinhos para se entregar ao soninho...

A enfermeira vinha entrando com uma bandeja cheia de seringas e remédios quando quebrou o silêncio dizendo: - Ai meu Deus! Vocês conseguiram acalmar ele! Nem vou medicar agora senão ele vai cair no choro de novo!

Lá foi ela saindo de fininho e nós saímos junto com ela cantarolando Peixe Vivo bem baixinho pra manter a tranquilidade e a paz naquele quarto.

Quem disse que palhaço é só pra fazer sorrir?
Às vezes a gente consegue até acalmar!



quarta-feira, 17 de setembro de 2014

De Mãos Dadas

  
Relato enviado pela voluntária Viviane (Palhaça Dália)



Lorena e eu entramos em um quarto da UTI do Hospital Menino Jesus e nos deparamos com o V., um menininho que estava dormindo enquanto a mãe segurava bem forte sua mão.
Logo perguntamos: “Por que as suas mãos estão dadas?”
A mãe respondeu que o filho não conseguia dormir se ela não lhe desse a mão, pois ele não queria que ela fosse para longe!

Lorena, de imediato, se lembrou de que, quando era pequena, dormia de mãos dadas com o irmão, para assim se sentir mais segura. Eu, por minha vez, me lembrei que sempre dormia de mão bem apertada na mão da minha avó, para afastar os monstros. Então descobrimos que dar as mãos tinha um poder muito forte!

Agarramos a mão uma da outra para ficarmos também protegidas de todo o mal e pensamos em estratégias para que as mãos ficassem sempre unidas: se der formigamento, o jeito é chacoalhar a mão livre e também os braços, para que o formigamento flua para o universo. Todas as coisas necessárias para passar o dia devem estar por perto, especialmente se a dupla de mão estiver dormindo, porque sair do lugar para pegar não dá! E lavar as mãos? A partir de agora, só uma!

A mãe do V. ouviu atentamente nossas instruções e ficou mais tranquila, pois agora sabia como proceder para não ter mais que soltar a mão do filho!

V. abriu então rapidinho os olhos, espiou as palhaças com uma carinha de surpresa e logo voltou a fechá-los, caindo de novo no sono, afinal a mão da mãe estava apertando bem forte a sua. Tudo ficaria bem!


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Os Incríveis


Relato enviado pelo voluntário Luciano (Palhaço Crispim)




Múrcia e Crispim entram em um quarto no quinto andar e advinha a recepção?
Um quarto bem cheio por sinal, porém com um grande concorrente na televisão, o desenho dos INCRÍVEIS, tomando toda a atenção dos nossos amiguinhos, amiguinhas, mães e por aí vai.

Assim que colocamos o pé dentro do quarto começou a discussão de Múrcia e Crispim.
- Crispim, como você quer competir com os Incríveis? Você tem algum super poder? Você estica o braço igual à Mulher Elástico? Tem super velocidade? Fica invisível?
Lógico que o Crispim sem nenhum dos super poderes quis enganar a Murcia se escondendo atrás do biombo.
- Múrcia? Tá me vendo? Estou invisível!!
Múrcia não pensa duas vezes antes de acabar com a paspalhice de Crispim.
- Lógico que eu estou te vendo, Crispim! Olha a sua buzanfa de fora do biombo aí!!

Nisso o povo já estava começando a entrar no clima. Uma das mães não se aguentava de rir e aquela alegria foi contagiando a todos no quarto.
Crispim em mais uma tentativa, ficou agachado de baixo da cama e novamente gritou no quarto.
- Múrcia? Tá me vendo? Estou invisível.
E Múrcia, mais uma vez, acaba com a festa de Crispim.
- Sai de baixo da cama Crispim! Lógico que eu tô te vendo.
E, mais uma vez, só risadas no quarto.

Quando o Crispim já ia saindo desconsolado das suas tentativas de invisibilidade, eis que aparece uma das nossas personagens principais: “A Mulher Contorcionista”!
Logo ao vê-la Crispim já chama Murcia desesperadamente!
- Múrcia, Múrcia!! Os Incríveis são de verdade!! Eles existem mesmo e aponta para nossa mãe contorcionista.
Múrcia, ao ver, começa a entrar em desespero.
- Crispim, é verdade, eles existem! Olha, olha como ela está torta!! A cabeça de um lado, as pernas de outro, os braços de outro!!!

E a cara de espanto de Múrcia e Crispim tomam conta do lugar! Nisso uma das mãe começa a gargalhar muito alto e  Múrcia solta:
- Meu Deus!! Crispim, todos aqui tem super poderes! Olha lá!! Ela é a Risada Atômica!!!
Neste momento o quarto virou uma risada só, todos sem exceção estavam gargalhando.

Múrcia e Crispim naquele desespero, começam a se aproximar de mansinho da saída, enquanto iam identificando todos os outros super poderes dos que estavam no quarto, e na contagem regressiva do 3 saem desesperado após uma super risada que poderia acabar com o planeta! Imaginem o que não faria só com o Hospital.

Bom, isso só prova que muito mais incrível que os incríveis são os palhaços da Operação Arco-Íris!!


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Com Licença, Tem Alguém Aí do Outro Lado?

Relato enviado pela voluntária Paloma (Palhaça Lorena)



Dália e eu olhamos para dentro de um quarto e vimos um garoto sozinho, de costas pra gente, sentado em uma cadeira de rodas, balançando lentamente os ombros e fazendo aquele barulho típico de quem está chorando. Respiramos fundo e demos três batidinhas no batente da porta.

Dália: Com licença!
Lorena: Com licença!
Dália: Tem alguém aí do outro lado?
Lorena: Tem alguém aí do outro lado?

O menino parou de balançar os ombros e o barulho de choro cessou por um momento. Sem olhar pra gente, o garoto balançou a cabeça para cima e para baixo. Entendemos que aquilo era um sim. Ficamos curiosas e mais uma vez demos três batidinhas no batente da porta.

Dália: Com licença!
Lorena: Com licença!
Dália: Tem alguém aí do outro lado?
Lorena: Tem alguém aí do outro lado?
Dália: Se tem alguém aí do outro lado, olhe para cá.
Lorena: Se tem alguém aí do outro lado, olhe para cá.

O menino virou a cabeça, nos olhou com o rosto molhado de lágrimas. Respiramos fundo, olhamos uma para a outra e continuamos com as nossas batidinhas.

Dália: Com licença!
Lorena: Com licença!
Dália: Tem alguém aí do outro lado?
Lorena: Tem alguém aí do outro lado?
Dália: Se tem alguém aí do outro lado, a gente pode entrar?
Lorena: Se tem alguém aí do outro lado, a gente pode entrar?

O menino deu uma risadinha e fez um joia com a mão. Pulamos de alegria e as nossas batidinhas ficaram cada vez mais rápidas e piradas.

Dália: Com licença!
Lorena: Com licença!
Dália: Tem alguém aí do outro lado?
Lorena: Tem alguém aí do outro lado?
Dália: Se tem alguém aí do outro lado, a gente pode entrar?
Lorena: Se tem alguém aí do outro lado, a gente pode entrar?
Dália: Se a gente pode entrar, podemos entrar pulando?
Lorena: Se a gente pode entrar, podemos entrar pulando?

O menino continuou rindo e enxugou as lágrimas do seu rosto. Entramos pulando no quarto e fizemos manobras radicais para contornar a cadeira de rodas e ficar bem na frente do garoto. Demos três batidinhas em uma mesinha e retomamos nossa conversa com eco.
Lorena: Com licença!
Dália: Com licença!
Lorena: Tem alguém aqui deste lado?
Dália: Tem alguém aqui deste lado?

O menino riu, fez joia, balançou a cabeça positivamente e ficou acompanhando cada movimento nosso com os olhos. Nós também não tirávamos os olhos dele.

Lorena: Com licença!
Dália: Com licença!
Lorena: Tem alguém aqui deste lado?
Dália: Tem alguém aqui deste lado?
Lorena: Se tem alguém aqui deste lado, esse alguém quer ouvir uma música maluca?
Dália: Se tem alguém aqui deste lado, esse alguém quer ouvir uma música maluca?

O menino se ajeitou na cadeira, arregalou os olhos e aceitou nossa proposta.

Dália: Com licença!
Lorena: Com licença!
Dália: Tem alguém aqui deste lado?
Lorena: Tem alguém aqui deste lado?
Dália: Se tem alguém aqui deste lado, esse alguém quer ouvir uma música maluca com uma dança muito doida?
Lorena: Se tem alguém aqui deste lado, esse alguém quer ouvir uma música maluca com uma dança muito doida?

O menino respondeu: SIM.

Dália e eu inventamos um rap muito maluco, sempre repetindo as frases “Tem alguém aí? Tem alguém aqui? Você está aqui?” e chacoalhando o corpo freneticamente. O menino sorria pra gente o tempo todo. Ao final da música, não havia mais lágrimas naquele quarto.

Lorena: Com licença!
Dália: Com licença!
Lorena: Tem alguém aqui deste lado?
Dália: Tem alguém aqui deste lado?
Lorena: Se tem alguém aqui deste lado, a gente pode ir embora?
Dália: Se tem alguém aqui deste lado, a gente pode ir embora?

O menino sorriu e fez um sim balançando a cabeça. Dália e eu saímos do quarto pulando. Paramos perto da porta. Demos três batidinhas no batente.

Dália: Com licença!
Lorena: Com licença!
Dália: Tchau.
Lorena: Tchau.